ABAV Expo 2026 abre em São Paulo com turismo em alta e desafio de levar crescimento aos pequenos negócios
Cerimônia reúne lideranças do turismo nacional, aponta recordes do setor e coloca conectividade, qualificação e distribuição dos benefícios entre os desafios do próximo ciclo; à Receita de Turismo, presidente da Embratur destaca caminhos para inserir pequenos empreendedores no mercado internacional
Por Alexandre Richards | Revista Receita de Turismo
São Paulo (SP), 30 de setembro de 2026
São Paulo voltou a ocupar, nesta quarta-feira (30), o centro das discussões do turismo brasileiro com a abertura da ABAV Expo 2026, no Expo Center Norte. A feira segue até 2 de outubro e reúne agentes de viagens, destinos, empresas e representantes do poder público e do trade turístico.
Mais do que uma solenidade protocolar, a abertura desenhou um retrato do momento vivido pelo setor. De um lado, números de crescimento, aumento da movimentação de turistas e investimentos. Do outro, uma questão que atravessou diferentes pronunciamentos: como transformar o avanço do turismo brasileiro em desenvolvimento que alcance destinos, municípios e pequenos empreendedores?
Foi justamente sobre esse ponto que a Revista Receita de Turismo ouviu, após a cerimônia, o presidente da Embratur, Bruno Reis.
Do recorde ao pequeno empreendedor
Durante sua participação na abertura, Bruno Reis defendeu que o crescimento do turismo internacional brasileiro não deve ser medido apenas pela quantidade de visitantes.
Ao fazer uma retrospectiva, citou que o país recebeu cerca de 5 milhões de turistas internacionais em 2006 e aproximadamente 6,5 milhões em 2016. Segundo os números apresentados por ele na cerimônia, entre janeiro e agosto de 2026 o Brasil já havia alcançado aproximadamente 6,5 milhões de visitantes internacionais e US$ 7 bilhões em receitas.
Para Reis, entretanto, o próximo salto exige olhar também para a qualidade desse crescimento: aumentar permanência, gasto, circulação por diferentes destinos e impacto econômico local.
Depois da solenidade, a Receita de Turismo levou a discussão diretamente ao presidente da Embratur:
Receita de Turismo — O Brasil está batendo recordes no turismo internacional. Qual é o principal gargalo para conseguirmos levar esses benefícios aos pequenos empreendimentos e às pequenas cidades?
Bruno Reis destacou que uma das barreiras ainda está na capacidade do pequeno negócio de acessar os canais internacionais de comercialização.
“Nos últimos três anos a gente melhorou muito a inserção da cadeia do pequeno e médio empreendedor no turismo internacional. Então eles começaram a acessar mais o mercado.”
Segundo ele, a Embratur modificou ferramentas para ampliar essa participação e pequenos empreendedores passaram, inclusive, a ter maior presença em feiras.
Reis apontou a parceria com o Sebrae e iniciativas como o Feel Brasil e o DesBRAva como instrumentos para ampliar esse acesso.
“Muitos pequenos empreendedores não têm o conhecimento e o know-how para poder acessar o mercado.”
A resposta toca em uma questão especialmente importante para destinos que estão fora dos grandes circuitos turísticos: não basta aumentar o fluxo internacional para o Brasil. É necessário criar caminhos para que produtos locais estejam preparados, estruturados e comercialmente conectados a esse mercado.
Sebrae coloca os pequenos negócios no centro da discussão
A participação do Sebrae reforçou esse mesmo movimento. Em mensagem exibida durante a cerimônia, foi destacado que os pequenos negócios representam cerca de 97% das empresas ligadas ao setor turístico.
Entre as iniciativas apresentadas esteve o Feel Brasil, descrito durante a abertura como uma vitrine internacional composta por 101 experiências turísticas distribuídas por mais de 60 municípios, com forte participação de pequenos negócios.
A proposta aproxima duas pontas que nem sempre estiveram conectadas: experiências locais e mercado internacional.
O desafio, portanto, passa menos pela ausência de atrativos e mais pela transformação desses atrativos em produtos preparados para entrar nas chamadas “prateleiras” do turismo.
São Paulo usa a ABAV para mostrar que é muito mais que a capital
Anfitrião da edição, o Estado de São Paulo também utilizou a abertura para defender a descentralização do fluxo turístico.
Representando o governador Tarcísio de Freitas, a secretária de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, Ana Maria Biselli Aidar, destacou a diversidade paulista e lembrou que o estado reúne metrópole, litoral, serras, Mata Atlântica, turismo de natureza e diferentes rotas temáticas.
Vinho, café, cachaça, cerveja e queijo apareceram como exemplos de produtos capazes de transformar territórios e produção regional em experiências turísticas.
A secretária também chamou atenção para a conectividade de São Paulo e para a possibilidade de ampliar a permanência do visitante para além da capital.
No encerramento, resumiu o caminho pretendido em cinco frentes: cocriação, colaboração, informação, formação e integração.
Capital aposta em Fórmula 1, Natal e Réveillon
Representando o prefeito Ricardo Nunes, o secretário municipal de Turismo de São Paulo, Gustavo Lopes de Souza, apresentou a agenda de grandes eventos como um dos instrumentos para fortalecer a atratividade da capital.
Entre os destaques citados estiveram a Fórmula 1, programada para novembro, os investimentos no Natal Iluminado e a sequência de eventos que passa pela Corrida Internacional de São Silvestre e chega ao Réveillon.
A estratégia apresentada procura transformar o calendário de eventos em produto turístico e ampliar sua comercialização por agências e operadoras.
O secretário também aproveitou o palco para apresentar preocupações do setor, entre elas a responsabilidade solidária das agências de viagens, os efeitos da reforma tributária e os debates relacionados à escala de trabalho.
Infraestrutura para sustentar o crescimento
Outro eixo importante da abertura foi a infraestrutura.
Representando o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, o secretário nacional de Políticas de Turismo, Augusto Rocha, apresentou números sobre passageiros domésticos, receitas geradas pelo turismo internacional, empregos e investimentos públicos em infraestrutura turística.
Já o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé França, concentrou sua participação na ampliação da capacidade aeroportuária.
Segundo os dados apresentados por ele na cerimônia, o Brasil saiu de aproximadamente 98 milhões de passageiros aéreos no início do atual ciclo de governo para quase 130 milhões em 2025.
O ministro também falou sobre o avanço das concessões aeroportuárias e sobre a expansão do modelo para aeroportos regionais, defendendo que a infraestrutura precisa acompanhar o crescimento do fluxo turístico e alcançar destinos fora dos grandes centros.
Turismo, comércio e desenvolvimento caminham juntos
A abertura também reuniu representantes de diferentes entidades da cadeia turística.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo destacou a relação direta entre turismo, comércio e serviços e defendeu maior espaço do setor nas políticas de desenvolvimento econômico.
A Caixa Econômica Federal, representada pelo superintendente Rodrigo de Jesus Gouveia, reafirmou o turismo como segmento prioritário para a instituição e lembrou a parceria mantida com a ABAV desde 2020.
Também participaram representantes de entidades nacionais, governos estaduais e municipais e organizações ligadas à hotelaria, aviação, agenciamento e demais segmentos da cadeia turística.
Demônios da Garoa levam São Paulo para dentro da cerimônia
Entre discursos, números e perspectivas econômicas, a abertura também abriu espaço para uma das marcas culturais da cidade anfitriã.
Os Demônios da Garoa, grupo ligado à história musical paulistana e um dos conjuntos mais longevos da música brasileira, participaram da cerimônia em diferentes momentos.
A apresentação quebrou o protocolo e deu à abertura uma identidade particularmente paulistana — lembrando, na prática, algo repetido nos próprios discursos: turismo também é cultura, memória e identidade.
Uma feira começa — e uma pergunta permanece
A fotografia oficial das autoridades no palco e o descerramento da faixa marcaram o fim da solenidade e a abertura dos corredores da ABAV Expo 2026.
Mas uma das questões mais importantes levantadas naquela manhã permaneceu aberta.
O Brasil pode receber mais turistas, ampliar sua conectividade, bater recordes e aumentar receitas. O passo seguinte é fazer com que esse movimento atravesse os grandes portões de entrada e alcance a pousada familiar, o produtor rural, o guia, o artesão, a pequena agência, o restaurante e as experiências existentes em municípios ainda pouco presentes no mercado nacional e internacional.
É justamente nesse ponto que a resposta dada por Bruno Reis à Receita de Turismo ganha dimensão maior.
Se o gargalo está também no conhecimento necessário para acessar o mercado, capacitação e comercialização deixam de ser questões secundárias. Tornam-se parte da própria estratégia de descentralização do turismo.
A ABAV Expo 2026 começou mostrando um Brasil turístico que comemora números importantes. Os próximos três dias ajudarão a mostrar como destinos, empresas, governos e agentes de viagens pretendem transformar esses números em negócios e oportunidades distribuídos pelo território.
E é pelos corredores da feira, onde essas conexões efetivamente acontecem, que a Revista Receita de Turismo continua sua cobertura especial diretamente de São Paulo.