O Brasil tem um dos maiores produtos
turísticos do mundo — mas ainda não sabe vendê-lo na mesma proporção
ABAV Expo 2026 reúne em São Paulo mais de 40 mil visitantes,
cerca de 2 mil marcas e parte dos principais atores do turismo brasileiro em um
momento decisivo para transformar potencial em mercado
Por Alexandre Richards
Revista Receita de Turismo
O Brasil não tem falta de
produto turístico.
Tem Amazônia, Pantanal,
Cerrado, litoral, praias, serras, montanhas, cidades históricas, gastronomia
regional, turismo de aventura, natureza, cultura, religião, negócios, eventos,
luxo, bem-estar e experiências capazes de atender praticamente todos os perfis
de viajantes.
Tem dimensão continental.
Tem diversidade climática. Tem paisagens que o mundo inteiro procura.
O desafio é outro.
Transformar toda essa
riqueza em produto estruturado, distribuído, conhecido e comercializado na
mesma proporção do potencial brasileiro.
É justamente nesse ponto que
a ABAV Expo 2026 ganha relevância.
De 30 de setembro a 2 de outubro,
o Expo Center Norte, em São Paulo, recebe a feira que a própria organização
apresenta como a maior feira de turismo da América Latina. A expectativa
oficial é de mais de 40 mil visitantes, mais de 2 mil marcas expositoras, mais
de 50 capacitações e cerca de 800 profissionais de mídia circulando pelo
evento. A feira tem perfil B2B e reúne agentes de viagens, trade, guias,
imprensa, assessorias e profissionais ligados ao setor.
A ABAV Expo, evidentemente,
não é uma solução isolada para os desafios do turismo brasileiro.
Mas funciona como uma das
ferramentas mais importantes para aproximar quem cria o produto, quem promove,
quem distribui, quem compra, quem vende e quem precisa entender para onde o
mercado está indo.
O problema não está na falta de atrativos
O país já mostrou que
consegue crescer no turismo internacional.
A chegada de visitantes
estrangeiros avançou fortemente nos últimos anos, e 2025 terminou com recorde
histórico de 9,3 milhões de turistas internacionais. Em 2026, os números
continuaram elevados, com 3,74 milhões de chegadas apenas no primeiro
trimestre.
O avanço é importante.
Mas o próprio crescimento
deixa mais evidente a pergunta que o setor ainda precisa responder:
como transformar
diversidade turística em escala de mercado?
Não basta ter o destino.
É preciso posicioná-lo,
estruturá-lo, comunicá-lo, qualificá-lo e colocá-lo na frente das pessoas
certas.
Entre uma cachoeira
extraordinária e o turista que deseja conhecê-la existe uma cadeia inteira:
gestores públicos, empresários, receptivos, hotelaria, operadoras, agentes de
viagens, tecnologia, transporte, promoção e inteligência de mercado.
É essa engrenagem que decide
se um lugar continuará desconhecido ou se conseguirá se transformar em produto
turístico competitivo.
O setor já começou a responder
O turismo brasileiro não
parte do zero.
Em diferentes frentes, já
surgem iniciativas que mostram como parte desse potencial pode ser convertida
em valor.
No turismo de luxo, a
Brazilian Luxury Travel Association — BLTA trabalha para ampliar a presença do
Brasil no mercado internacional, gerar oportunidades para os associados e
produzir estudos capazes de orientar o segmento. A entidade também coloca
sustentabilidade, turismo regenerativo e inteligência de mercado entre seus
objetivos para 2026.
À frente dessa estratégia
está Camilla Barretto, CEO da BLTA, que vem defendendo o uso de dados para
compreender melhor o comportamento do mercado de luxo brasileiro. O Anuário
BLTA 2026 aparece exatamente nesse contexto: como ferramenta para identificar
tendências, desempenho e oportunidades do segmento.
A mudança, porém, não está
restrita aos grandes centros.
Na AVIRRP 2026, realizada em
Ribeirão Preto, Ricardo Alves, da Velle Representações, idealizou o Espaço
Cruise Collection, levando para o interior uma área especializada em cruzeiros
e viagens de alto padrão. A iniciativa reuniu nove marcas de cruzeiros e
recebeu mais de 120 agentes de viagens durante a feira.
O dado mais importante não é
apenas o número de marcas ou de participantes.
É o que o movimento representa.
Ao aproximar agentes do
interior de produtos sofisticados e fornecedores especializados, o projeto
mostra que expansão de mercado também depende de capacitação, acesso e
relacionamento comercial.
Tecnologia começa a atacar gargalos antigos
Outra frente dessa
transformação está na operação das próprias agências de viagens.
A PassHub, liderada por Alan
Matheus Barbosa, surgiu para centralizar fornecedores, simplificar processos e
reduzir a fragmentação tecnológica que ainda consome tempo dos agentes. Em
apenas nove meses de operação, a plataforma ultrapassou 2 mil agências
cadastradas e captou R$ 7,5 milhões em uma rodada destinada ao desenvolvimento
de produtos, expansão e ferramentas de inteligência artificial.
Não é apenas uma história de startup.
É um exemplo de como
tecnologia pode interferir diretamente na capacidade de venda.
Quando o agente perde menos
tempo alternando entre sistemas, comparando condições manualmente ou
preenchendo processos repetitivos, sobra mais espaço para aquilo que nenhuma
plataforma substitui com facilidade: entender o cliente, interpretar desejos e
construir uma viagem coerente.
A feira onde essas peças se encontram
É nessa interseção entre
produto, capacitação, distribuição e tecnologia que a ABAV Expo se torna
particularmente relevante.
A programação da ABAV Talks
prevê quatro arenas e mais de 50 capacitações durante os três dias da feira,
abordando temas como inteligência artificial, inovação, ESG, turismo
regenerativo, diversidade, tecnologia, tendências e desenvolvimento de
destinos.
Ao mesmo tempo, iniciativas
como a área de operadoras buscam fortalecer a conexão entre empresas emissivas
e agentes de viagens, justamente no ponto em que produto precisa encontrar
distribuição.
A ABAV também chega a 2026
cercada por nomes e instituições que ocupam posições importantes na estrutura
do turismo brasileiro.
A presidência da entidade
está nas mãos de Ana Carolina Medeiros, enquanto o Ministério do Turismo é
comandado por Gustavo Feliciano. Na promoção internacional, a Embratur é
presidida por Bruno Reis.
Em São Paulo, a Secretaria
Estadual de Turismo e Viagens tem à frente Ana Biselli Aidar, e a Secretaria
Municipal de Turismo é comandada por Gustavo Lopes de Souza.
Os nomes importam porque representam diferentes peças da mesma
engrenagem.
Promoção internacional,
políticas públicas, desenvolvimento de destinos, distribuição, comercialização
e capacitação se encontram, durante três dias, dentro do mesmo espaço.
“Mais do que três dias de feira”
Às vésperas da abertura, a
presidente da ABAV Nacional, Ana Carolina Medeiros, falou com exclusividade à
Receita de Turismo sobre a mensagem que a entidade pretende deixar nesta
edição.
“A
nossa principal mensagem é que o turismo se fortalece quando trabalhamos de
forma coletiva, com a união de todos os agentes do setor.”
Na avaliação da presidente,
o objetivo é fazer com que os resultados da feira continuem produzindo efeitos
depois que os estandes forem desmontados.
“Mais
do que três dias de feira, nosso objetivo é que a ABAV Expo gere negócios,
deixe conexões e caminhos que continuem impulsionando o turismo brasileiro ao
longo de todo o ano.”
A fala sintetiza uma questão
central.
O turismo brasileiro talvez
não precise mais provar que possui atrativos extraordinários.
Precisa melhorar
continuamente a forma como transforma esses atrativos em produto, distribuição,
negócio e desejo de viagem.
A Receita de Turismo chega à ABAV com esse debate nas
páginas
Parte dessas transformações
também estará presente na 4ª edição da Revista Receita de Turismo, que será
disponibilizada a partir da ABAV Expo 2026.
A publicação reúne conteúdos
sobre turismo de luxo, tecnologia, destinos, experiências, mercado e novas
formas de estruturar e comercializar produtos turísticos.
Mais do que coincidir com os
temas da feira, essas pautas mostram que algumas das questões que estarão sendo
discutidas em São Paulo já fazem parte da agenda editorial da revista.
A Receita de Turismo
acompanhará a ABAV Expo 2026 diretamente do Expo Center Norte, com cobertura da
abertura, entrevistas, reuniões com destinos, empresas e entidades e
acompanhamento dos principais movimentos da feira.
A proposta será ir além do
registro dos estandes e dos anúncios institucionais.
Durante os três dias, a
pergunta que acompanhará a cobertura será a mesma que atravessa esta matéria:
quanto do enorme potencial
turístico brasileiro consegue, de fato, chegar ao mercado?