A guerra que virou identidade
Entenda por que a Revolução Farroupilha ainda mexe tanto com o Rio Grande do Sul
Redação Revista Receita Turismo | 20/09/2026
Semana Farroupilha reúne tradição, cultura, gastronomia e identidade gaúcha em Porto Alegre e em diferentes regiões do Rio Grande do Sul. (Imagem ilustrativa | Revista Receita de Turismo)
Dia
do Gaúcho: quando uma tradição é forte o bastante para atravessar fronteiras
Dois milhões de
pessoas passaram pelo Acampamento Farroupilha de Porto Alegre em 2026. Mas a
força do 20 de Setembro vai muito além do Rio Grande do Sul: está nos CTGs espalhados
pelo Brasil, nos gaúchos que vivem no exterior e em uma cultura que continua
sendo ensinada de geração em geração.
Quem nunca
esteve no Rio Grande do Sul durante a Semana Farroupilha talvez tenha
dificuldade para entender o tamanho dessa festa.
Não estamos
falando apenas de um feriado, de um desfile ou de pessoas vestindo roupas
típicas.
Para muitos
gaúchos, setembro mexe com memória, família, música, comida, amizade e
pertencimento.
O churrasco
ganha outro significado. A bombacha volta para as ruas. O lenço aparece no
pescoço. A gaita toca. As crianças dançam nos CTGs. O chimarrão passa de mão em
mão. Famílias inteiras se encontram em torno de uma tradição que não ficou
guardada no passado.
Ela continua
fazendo parte da vida.
E talvez seja
justamente isso que mais surpreenda quem chega de fora.
Neste domingo,
20 de setembro de 2026, o Acampamento Farroupilha, realizado no Parque Maurício
Sirotsky Sobrinho, o Parque Harmonia, em Porto Alegre, encerrou sua programação
com o parque lotado. Segundo balanço divulgado pela Prefeitura da capital
gaúcha, aproximadamente 2 milhões de pessoas passaram pelo evento durante esta
edição.
Foram 236
piquetes reunidos em uma grande celebração de música, dança, gastronomia,
convivência e tradição.
É gente demais
para chamar isso apenas de festa regional.
Quem é do Rio
de Janeiro sabe o que o Carnaval representa para a cidade.
Quem vive na
Bahia conhece a força das festas populares que ocupam as ruas, mudam a rotina e
mobilizam famílias inteiras.
No Rio Grande
do Sul, guardadas todas as diferenças culturais, a Semana Farroupilha provoca
algo semelhante em intensidade: durante vários dias, uma parte importante da
sociedade gaúcha se volta para sua própria história.
Não é
necessário ser tradicionalista para perceber.
As vitrines
mudam. As escolas trabalham a cultura gaúcha. As rádios tocam músicas
regionais. Os CTGs intensificam suas atividades. Os parques recebem
acampamentos. As famílias organizam churrascos.
E quem está
longe de casa acompanha tudo com um sentimento difícil de traduzir para quem
nunca viveu aquilo.
Talvez seja
saudade. Talvez orgulho. Talvez os dois.
Ao longo de
décadas, milhares de gaúchos deixaram o Rio Grande do Sul em direção a outros
estados.
Foram trabalhar
no Paraná, em Santa Catarina, no Centro-Oeste, na Amazônia, no Sudeste.
Levaram
famílias, negócios e sonhos. Mas levaram também a cuia. Levaram a música.
Levaram a dança. Levaram o churrasco. E levaram os CTGs.
A Confederação
Brasileira da Tradição Gaúcha registrava, em levantamento nacional, 2.656
Centros de Tradições Gaúchas e 1.428 piquetes distribuídos por 18 estados
brasileiros.
Isso ajuda a
explicar por que é possível encontrar uma invernada artística, um fandango ou
uma roda de chimarrão a milhares de quilômetros de Porto Alegre.
A cultura
gaúcha não ficou limitada às fronteiras do Rio Grande do Sul. Ela acompanhou
seu povo.
A história não
termina nas divisas brasileiras.
O Movimento
Tradicionalista Gaúcho registra núcleos no exterior, levando costumes do Rio
Grande do Sul para países de diferentes continentes.
Existem grupos
que preservam música, dança, gastronomia, vestimentas e costumes gaúchos longe
do Brasil.
É uma imagem
poderosa.
Uma criança
pode nascer a milhares de quilômetros dos pampas e ainda assim aprender a
dançar uma música tradicional, vestir uma pilcha ou tomar chimarrão porque seus
pais ou avós levaram aquela cultura consigo.
Poucas tradições
regionais conseguem viajar tanto sem perder sua identidade.
Para quem não
conhece, essa talvez seja uma das partes mais importantes dessa história.
CTG significa
Centro de Tradições Gaúchas.
Mas chamar um
CTG simplesmente de clube cultural seria reduzir demais sua função.
Ele pode ser
local de dança, música, gastronomia, encontro, atividades campeiras,
convivência entre gerações e aprendizado sobre história e costumes.
Na estrutura
tradicionalista, até os nomes dos cargos lembram uma estância.
O presidente é
chamado de patrão. O vice pode ser chamado de capataz. Os diferentes
departamentos são conhecidos como invernadas.
Há invernadas
artísticas, culturais, campeiras, esportivas, sociais e jovens.
Ali, uma
criança não aprende apenas passos de dança.
Ela entra em
contato com uma narrativa cultural que seus pais e avós aprenderam antes dela.
É assim que uma
tradição consegue sobreviver ao tempo.
O Acampamento
Farroupilha de Porto Alegre talvez seja hoje uma das maiores portas de entrada
para quem deseja conhecer essa cultura de perto.
A edição de
2026 foi realizada entre 29 de agosto e 20 de setembro, com mais de 120
atrações gratuitas.
Shows de música
regional, apresentações de CTGs, trova, chula, declamação e gastronomia
ocuparam o Parque Harmonia.
Para quem não é
gaúcho, caminhar pelo acampamento significa entrar em um ambiente que mistura
festa popular, memória e cotidiano.
Há fogo aceso.
Há comida sendo preparada. Há música. Há famílias. Há pessoas vestidas como
aprenderam a ver seus pais e avós se vestirem.
E talvez o
ponto mais interessante seja justamente este: ninguém parece estar
interpretando um personagem para turista.
As pessoas
estão vivendo aquilo.
É essa
diferença que transforma uma festa cultural em experiência turística.
Milhões de
brasileiros que nunca vestiram uma bombacha, nunca entraram em um CTG e talvez
nem saibam preparar um chimarrão visitam o Rio Grande do Sul durante os
festejos.
E muitos acabam
se envolvendo justamente porque encontram algo verdadeiro.
Uma cultura
forte não precisa pedir para ser fotografada. Ela simplesmente acontece diante
do visitante.
O turismo
cultural ganha força exatamente quando isso ocorre.
Quando o
viajante deixa de ser apenas espectador e começa a fazer perguntas.
Por que essa
roupa? Por que essa dança? Por que essa música? Por que a cuia passa de uma
pessoa para outra? Por que tanta gente mantém esses costumes depois de tantas
gerações?
É nesse momento
que uma viagem deixa de ser apenas deslocamento e começa a produzir memória.
O gaúcho é
frequentemente associado ao chamado “sangue quente”.
Existe orgulho.
Existe intensidade. Existe uma defesa quase visceral dos costumes.
E basta
conversar algum tempo com quem vive o tradicionalismo para perceber que, para
muita gente, isso não é decoração.
É identidade.
Talvez seja
exatamente essa intensidade que tenha permitido à cultura gaúcha atravessar
tantas mudanças sociais sem desaparecer.
Ela não
sobreviveu porque ficou protegida dentro de museus.
Sobreviveu
porque continuou sendo praticada.
Nas casas. Nos
CTGs. Nas rodas de chimarrão. Nos galpões. Nos bailes. Nas cavalgadas. Nas
músicas. E agora também nas viagens.
Os Festejos
Farroupilhas de 2026 escolheram como tema “Herança Jesuítica e Guarani no Rio
Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição”.
A escolha
amplia a própria compreensão sobre aquilo que chamamos hoje de cultura gaúcha.
Muito antes da
Revolução Farroupilha, povos indígenas já ocupavam aquele território.
A experiência
das Missões Jesuíticas Guaranis deixou marcas na formação cultural, territorial
e histórica do Estado.
Por isso, quem
deseja compreender o Rio Grande do Sul pode encontrar nas Missões outra
dimensão da viagem.
São Miguel das
Missões, por exemplo, preserva um dos conjuntos históricos mais importantes dessa
trajetória.
O 20 de
Setembro lembra o início da Revolução Farroupilha, em 1835.
O conflito
durou dez anos e marcou profundamente a história do Rio Grande do Sul.
Com o passar
das décadas, a data extrapolou o acontecimento histórico e tornou-se também uma
celebração da identidade cultural gaúcha.
A própria
Semana Farroupilha nasceu como movimento de preservação cultural, quando jovens
tradicionalistas organizaram, em 1947, uma primeira Ronda Crioula em Porto
Alegre.
No ano seguinte
seria fundado o 35 CTG, considerado o primeiro Centro de Tradições Gaúchas.
Talvez não
exista uma única resposta.
Mas existe uma
pista.
Os gaúchos não
esperaram que alguém preservasse sua cultura por eles.
Organizaram
entidades. Criaram CTGs. Formaram grupos de dança. Ensinaram crianças.
Promoveram festivais. Mantiveram músicas. Levaram tradições para outros estados
e outros países.
E continuaram
fazendo tudo isso quando seria muito mais fácil simplesmente deixar o tempo
passar.
Talvez por
isso, neste 20 de Setembro, milhares de gaúchos que vivem longe do Rio Grande
do Sul acordem com a sensação de que precisam fazer alguma coisa.
Vestir uma
pilcha. Acender o fogo. Preparar o mate. Colocar uma música. Telefonar para
alguém da família. Ou simplesmente olhar uma fotografia antiga.
Porque
tradição, quando é realmente vivida, não depende do endereço.
Destinos
turísticos investem milhões tentando construir uma identidade.
O Rio Grande do
Sul possui uma que foi construída durante gerações.
E talvez seja
por isso que o Dia do Gaúcho tenha força para atrair também quem não nasceu no
Estado.
O visitante
chega para assistir a uma festa.
Pode sair
querendo compreender um povo.
E essa talvez
seja uma das maiores riquezas que uma viagem pode oferecer.
No fim, o 20 de
Setembro não pertence somente aos livros de história.
Ele está nas
pessoas.
No gaúcho que
está em Porto Alegre. No que mora no interior. No que vive em São Paulo, no
Paraná, em Mato Grosso ou no outro lado do mundo.
E também
naquele turista que chegou apenas por curiosidade e, no meio de uma roda de
chimarrão, de uma música ou de um churrasco preparado sem pressa, começou a
entender por que essa tradição atravessou tantas fronteiras.
Porque algumas
tradições são lembradas. A gaúcha é vivida.
Quer entender de onde vem essa força?
O 20 de Setembro está ligado ao início da Revolução Farroupilha, um conflito que durou dez anos e marcou profundamente a história do Rio Grande do Sul.
Na próxima matéria, a Receita de Turismo explica quem lutou contra quem, por que a guerra começou, como terminou e por que ela ainda mexe tanto com a identidade gaúcha.
Leia também: Revolução Farroupilha: o que foi, por que começou e por que ainda marca o Rio Grande do Sul
Pilcha — Nome dado à
indumentária tradicional gaúcha. Pode incluir bombacha, botas, camisa, lenço,
guaiaca, chapéu e outras peças. A vestimenta feminina tradicional também é
considerada pilcha.
Bombacha — Calça
tradicional usada pelos gaúchos, larga nas pernas e ajustada junto aos
tornozelos. Tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos da cultura do Rio
Grande do Sul.
CTG — Sigla para Centro de
Tradições Gaúchas. São entidades dedicadas à preservação e à transmissão de
costumes, música, dança, gastronomia, atividades campeiras e outros elementos
da cultura gaúcha.
Piquete — No
tradicionalismo, é um grupo ou núcleo de pessoas ligado às atividades e aos
costumes gaúchos. Durante o Acampamento Farroupilha, os piquetes ocupam seus
espaços no parque, onde recebem integrantes e visitantes, mantêm o fogo aceso,
preparam refeições e realizam atividades culturais e de convivência.
Patrão — Nome
tradicionalmente dado ao dirigente ou presidente de um CTG.
Capataz — Denominação que
pode ser usada para integrantes da direção de um CTG, remetendo à organização
tradicional das antigas estâncias.
Invernada — Dentro de um
CTG, é o nome dado a diferentes grupos ou setores de atividades. Existem, por
exemplo, invernadas artísticas, culturais, campeiras e juvenis.
Prenda — Termo tradicional
utilizado para se referir às mulheres participantes do movimento
tradicionalista gaúcho, especialmente em atividades culturais e
representativas.
Peão — No ambiente
tradicionalista, denomina o homem participante das atividades gaúchas e também
remete historicamente ao trabalhador rural ligado às lidas campeiras.
Fandango — Baile
tradicional gaúcho, geralmente acompanhado de música regional e danças típicas.
Chula — Dança tradicional
masculina caracterizada por movimentos executados ao redor de uma lança ou
bastão colocado no chão, exigindo ritmo, habilidade e precisão.
Trova gaúcha — Forma de
poesia cantada ou improvisada, muitas vezes desenvolvida como um desafio entre
trovadores.
Mate — Outra maneira de
chamar o chimarrão. A expressão “tomar um mate” faz parte do cotidiano de
muitos gaúchos.
Cuia — Recipiente
tradicional no qual é preparado e servido o chimarrão.
Galpão — Muito mais que
uma construção rural. Dentro da cultura gaúcha, o galpão representa
convivência, fogo, comida, conversa, música e encontro.
Lida campeira — Conjunto
de atividades tradicionalmente relacionadas ao trabalho no campo e ao manejo
dos animais.
Acampamento Farroupilha — Grande
celebração tradicionalista realizada anualmente em Porto Alegre, no Parque
Maurício Sirotsky Sobrinho, reunindo piquetes, gastronomia, música, dança,
cultura e atividades ligadas à tradição gaúcha.
Conhecer
essas palavras ajuda a compreender algo importante: no Rio Grande do Sul, a
tradição possui também um vocabulário próprio. E cada expressão carrega um
pouco da história de quem continua mantendo essa cultura viva.