A
festa nasceu de uma guerra: o que foi a Revolução Farroupilha e por que ela
ainda mexe tanto com o Rio Grande do Sul
Por dez anos,
entre 1835 e 1845, farroupilhas enfrentaram o Império do Brasil, proclamaram
uma república, levaram a guerra até Santa Catarina e deixaram marcas que, quase
dois séculos depois, continuam presentes no 20 de Setembro, nos CTGs, nas
músicas e na identidade gaúcha
Milhares
de pessoas vestiram pilchas, acenderam o fogo, passaram o chimarrão de mão em
mão e celebraram o 20 de Setembro.
Mas por trás da
festa existe uma guerra.
Uma guerra que
durou dez anos, mobilizou estancieiros, militares, trabalhadores livres,
escravizados e libertos, criou uma república no extremo sul do Brasil,
atravessou fronteiras provinciais e ajudou a construir uma memória que continua
viva 191 anos depois de seu início.
Para quem não é
do Rio Grande do Sul, talvez essa seja uma das partes mais curiosas da Semana
Farroupilha: por que um conflito encerrado em 1845 ainda é lembrado com tanta
intensidade?
Para começar a
responder, é preciso voltar ao Brasil de 1835.
O que estava acontecendo no Brasil quando a Revolução
Farroupilha começou?
O país ainda
era jovem.
Dom Pedro I
havia abdicado em 1831, e seu filho, o futuro Dom Pedro II, era uma criança. O
Brasil passou então a ser governado por regentes, em um período marcado por
disputas políticas e rebeliões em várias províncias.
No extremo sul,
a então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul carregava uma
particularidade: sua economia estava fortemente ligada à criação de gado e à
produção de charque, carne salgada e seca que abastecia outras regiões
brasileiras. Os produtores locais reclamavam dos impostos e da concorrência do
charque importado do Uruguai e da Argentina, que chegava ao mercado em
condições consideradas mais favoráveis.
Mas reduzir a
Revolução Farroupilha a uma briga por impostos seria simplificar demais.
Também existiam
conflitos sobre autonomia provincial, insatisfação com presidentes nomeados
pelo governo central e circulação de ideias liberais, federalistas e, em parte
do movimento, republicanas. A própria documentação histórica mostra que o
separatismo não foi necessariamente o ponto de partida de todos os revoltosos;
o movimento se radicalizou ao longo da guerra.
Quem lutava contra quem?
De um lado
estavam os farroupilhas, ou farrapos, formados em torno de lideranças políticas
e militares da província, entre eles Bento Gonçalves.
Do outro
estavam as forças ligadas ao governo do Império do Brasil, também chamadas de
legalistas ou imperiais.
É importante
não imaginar, porém, um Rio Grande do Sul inteiro unido contra o restante do
país.
Havia
rio-grandenses nos dois lados.
Cidades,
famílias e lideranças locais fizeram escolhas diferentes ao longo do conflito.
Porto Alegre, por exemplo, depois de tomada pelos rebeldes no início da
revolta, voltou ao controle imperial e tornou-se um importante centro de
resistência aos farroupilhas.
Portanto,
embora a memória posterior tenha criado símbolos bastante nítidos, a guerra
real foi mais complexa.
E o que aconteceu em 20 de setembro de 1835?
Na noite de 19
para 20 de setembro, forças rebeldes entraram em confronto nas proximidades de
Porto Alegre. No dia 20, tropas lideradas por Bento Gonçalves avançaram sobre a
capital provincial.
O então
presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, deixou Porto Alegre
e seguiu para Rio Grande, que se tornaria uma das principais bases do governo
imperial durante o conflito.
É esse episódio
que deu ao 20 de Setembro o significado histórico que carrega hoje.
Mas havia uma
diferença importante entre aquele momento e o que aconteceria depois:
em setembro de
1835, os revoltosos ainda não haviam proclamado uma república independente.
Então o Rio Grande do Sul não começou a guerra querendo se
separar do Brasil?
Essa é uma das
perguntas mais interessantes da Revolução Farroupilha.
Não dá para
responder simplesmente “sim” ou “não”.
No começo da
revolta, parte importante das reivindicações estava ligada à deposição do
presidente provincial e à exigência de maior autonomia e atenção aos interesses
locais. Documentos da época mostram que Bento Gonçalves pressionava o governo
central e chegou a ameaçar com a separação caso as reivindicações da província
não fossem atendidas.
A independência
veio depois.
Quase um ano
após o início da guerra, em 11 de setembro de 1836, depois da vitória
farroupilha na Batalha do Seival, Antônio de Souza Netto proclamou a República
Rio-Grandense.
A partir daí, o
conflito assumiu claramente uma dimensão separatista e republicana entre os
rebeldes que aderiram ao novo Estado.
Piratini
tornou-se a primeira capital da República Rio-Grandense.
Quem foi Bento Gonçalves?
Bento Gonçalves
da Silva tornou-se o personagem mais conhecido da Revolução Farroupilha e foi
escolhido presidente da República Rio-Grandense.
Militar,
estancieiro e liderança política, participou diretamente da articulação inicial
da revolta.
Mas sua
trajetória durante a guerra esteve longe de ser simples.
Em 1836, acabou
capturado após a derrota farroupilha na Ilha do Fanfa. Foi enviado para o Rio
de Janeiro e depois para a Bahia, de onde conseguiu fugir e retornar ao sul.
Ao longo dos
dez anos, outras lideranças também tiveram enorme importância, como Antônio de
Souza Netto, David Canabarro e Giuseppe Garibaldi.
A Revolução
Farroupilha não foi obra de um único homem.
E como Giuseppe Garibaldi foi parar no Rio Grande do Sul?
Essa é uma das
histórias que ajudaram a tornar a Revolução Farroupilha conhecida para além do
Brasil.
Giuseppe
Garibaldi era um revolucionário italiano que se envolveu com a causa
farroupilha e passou a atuar nas operações militares e navais dos rebeldes.
O problema
estratégico dos farrapos era evidente: embora controlassem grande parte do
interior em determinados momentos, não dominavam com segurança os principais
acessos marítimos.
A busca por um
porto ajudou a levar a revolução para Santa Catarina.
Foi assim que surgiu a República Juliana?
Sim.
Em 1839, forças
farroupilhas avançaram sobre Laguna, em Santa Catarina. Garibaldi participou
das operações por água, enquanto David Canabarro comandava tropas por terra.
Laguna foi
tomada em julho daquele ano e ali foi proclamada a República Juliana, também
chamada de República Catarinense. A experiência republicana foi curta e
terminou ainda em 1839, depois da retomada da região pelas forças imperiais.
Foi também
nesse período que Garibaldi conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro.
O mundo
passaria a conhecê-la como Anita Garibaldi.
Anita Garibaldi realmente participou da guerra?
Participou.
Anita não ficou
apenas ao lado de Garibaldi como personagem romântica de sua biografia.
Ela acompanhou
campanhas e enfrentou situações de combate e fuga durante a Revolução
Farroupilha e a República Juliana. Mais tarde, seguiria com Garibaldi para o
Uruguai e depois teria seu nome associado também às lutas pela unificação
italiana.
Essa trajetória
ajudou a transformá-la em uma das figuras femininas mais conhecidas da história
sul-brasileira.
E os Lanceiros Negros?
Aqui a matéria
precisa abandonar qualquer romantização.
Homens negros
tiveram participação importante nas forças farroupilhas, especialmente nas
unidades conhecidas como Lanceiros Negros.
Muitos eram
escravizados incorporados à guerra sob expectativas ou promessas de liberdade.
Perto do fim do
conflito ocorreu um dos episódios mais controversos e dolorosos da Revolução
Farroupilha: o Combate de Porongos, em novembro de 1844, quando uma força
imperial atacou o acampamento farroupilha e grande número de combatentes negros
foi morto.
O episódio é
objeto de debate historiográfico.
Existem
interpretações que apontam para uma possível combinação ou traição envolvendo o
desarmamento dos lanceiros antes do ataque; outros pesquisadores discutem os
limites documentais dessas conclusões. O que não está em dúvida é que Porongos
se tornou uma ferida profunda na memória da guerra e impede qualquer leitura
simples ou puramente heroica do conflito.
Afinal, os farroupilhas defendiam liberdade enquanto
mantinham escravos?
Essa é
justamente uma das grandes contradições da Revolução Farroupilha.
Muitas das
principais lideranças do movimento pertenciam a uma sociedade escravista e eram
proprietárias de terras, gado e, em vários casos, pessoas escravizadas.
Ao mesmo tempo,
negros lutaram nas fileiras farroupilhas e alguns conquistaram ou receberam
promessas de liberdade.
Por isso,
palavras como “liberdade” precisam ser entendidas dentro do contexto daquele
século.
A liberdade
política defendida por líderes republicanos não significava necessariamente a
defesa da abolição da escravidão para toda a população.
É uma
contradição essencial para compreender o período sem transformá-lo nem em lenda
perfeita nem em caricatura.
Como essa guerra de dez anos conseguiu durar tanto?
O território
ajudava.
O conhecimento
dos campos, das fronteiras e das rotas, somado à mobilidade da cavalaria e à
experiência militar de muitos combatentes, permitiu aos farroupilhas manter o
conflito por muito tempo.
Além disso, a
proximidade com Uruguai e Argentina fazia do sul uma região de intensa
circulação política, comercial e militar.
Mas dez anos de
guerra cobraram um preço elevado.
Houve desgaste
das tropas, perdas humanas, prejuízos econômicos e divergências internas entre
os próprios farroupilhas.
Na década de
1840, o Império intensificou os esforços de pacificação.
Quem entrou em cena para acabar com a guerra?
Luís Alves de
Lima e Silva, então Barão de Caxias — posteriormente Duque de Caxias — assumiu
o comando imperial no sul e passou a combinar operações militares com
negociações políticas.
Já não se
tratava apenas de derrotar os rebeldes no campo.
Era preciso
construir uma saída que permitisse reintegrar a província ao Império.
As negociações
avançaram até 1845.
Quem ganhou a Revolução Farroupilha?
Essa pergunta
exige cuidado.
Militar e politicamente,
a República Rio-Grandense não permaneceu independente. Ao fim do conflito, o
território voltou definitivamente à estrutura do Império do Brasil.
Mas também não
houve simplesmente uma rendição incondicional dos farroupilhas.
A pacificação
envolveu negociações e concessões, incluindo anistia aos participantes e
incorporação de oficiais e soldados ao Exército imperial. Fontes regionais
também registram medidas relacionadas à tributação do charque e às
reivindicações políticas da província.
Talvez por isso
seja mais correto entender o desfecho como uma pacificação negociada depois do
desgaste da rebelião, e não como uma vitória simples capaz de resumir toda a
guerra em um vencedor e um derrotado.
O que foi o Tratado de Ponche Verde?
O nome tradicionalmente
associado ao encerramento da guerra é Paz de Ponche Verde.
Em fevereiro de
1845, as condições negociadas para encerrar o conflito foram apresentadas às
lideranças farroupilhas nos campos de Ponche Verde, região de Dom Pedrito.
Registros
oficiais locais indicam que as condições foram aceitas no final de fevereiro, e
em 1º de março de 1845 o Barão de Caxias anunciou oficialmente a pacificação da
província.
Depois de quase
dez anos, terminava a Revolução Farroupilha.
Se a república acabou, por que o 20 de Setembro
sobreviveu?
É aqui que
história e identidade começam a se misturar.
Guerras acabam.
Memórias não
necessariamente.
Ao longo das
gerações, personagens, símbolos e episódios da Revolução Farroupilha passaram a
ocupar um lugar cada vez maior na construção da identidade cultural do Rio
Grande do Sul.
O 20 de
Setembro deixou de ser apenas a lembrança de uma ação militar ocorrida em 1835.
Passou a
representar, para parte significativa da tradição gaúcha, ideias associadas a
autonomia, resistência, coragem, pertencimento regional e defesa de interesses
locais.
Isso não
significa que todos os gaúchos interpretem a guerra da mesma maneira.
Historiadores
continuam revisitando o conflito, discutindo suas contradições e ampliando o
espaço dado a personagens e grupos que por muito tempo ficaram fora da
narrativa tradicional.
E talvez seja
justamente isso que mantenha a história viva.
A Revolução Farroupilha foi uma guerra de heróis?
Foi uma guerra
de pessoas.
E pessoas têm
interesses, virtudes, contradições e escolhas difíceis.
Havia homens
dispostos a morrer por um projeto político.
Havia
interesses econômicos.
Havia disputas
pelo poder.
Havia
escravidão.
Havia negros
lutando por liberdade.
Havia
republicanos.
Havia
monarquistas.
Havia gaúchos
lutando contra gaúchos.
Havia mulheres
atravessando batalhas.
Havia famílias
divididas.
Quando
retiramos a camada da lenda, a história não fica menor.
Fica maior.
Porque passa a
mostrar seres humanos tomando decisões em um dos períodos mais turbulentos do
Brasil.
E onde o turista encontra essa história hoje?
A Revolução
Farroupilha não está apenas nos livros.
Ela pode ser
encontrada em cidades, museus, monumentos e paisagens do Rio Grande do Sul e de
Santa Catarina.
Piratini foi a
primeira capital da República Rio-Grandense.
Caçapava do Sul
e Alegrete também exerceram funções de capital durante o período republicano
farroupilha.
Porto Alegre
preserva lugares associados ao início da revolução.
Dom Pedrito
guarda a memória de Ponche Verde.
E Laguna, em
Santa Catarina, mantém viva a história da República Juliana e de Anita e
Giuseppe Garibaldi. O antigo prédio de Câmara e Cadeia da cidade, onde ocorreu
a proclamação republicana local, abriga hoje o Museu Histórico Anita Garibaldi.
É nesse ponto
que a história volta a encontrar o turismo.
Quem percorre
esses lugares deixa de enxergar a Revolução Farroupilha somente como uma
sequência de datas.
Passa a
caminhar pelos cenários onde aquela história realmente aconteceu.
Por que essa guerra ainda mexe tanto com o Rio Grande do
Sul?
Talvez porque
ela tenha deixado de pertencer apenas a 1835.
Foi incorporada
à música.
À literatura.
À bandeira.
À linguagem.
À memória
familiar.
Aos CTGs.
Ao 20 de
Setembro.
Aos desfiles.
À maneira como
muitos gaúchos aprenderam a contar a própria história.
Mas o
significado da Revolução Farroupilha continua sendo discutido.
E isso é
saudável.
Uma sociedade
não precisa escolher entre celebrar sua memória e conhecer suas contradições.
Pode fazer as
duas coisas.
Talvez compreender
verdadeiramente uma tradição seja justamente ter maturidade para admirar aquilo
que ela construiu sem esconder aquilo que sua história tem de difícil.
A primeira
matéria desta série mostrou uma tradição que atravessou fronteiras, levou CTGs
a diferentes partes do Brasil e reuniu milhões de pessoas em torno da cultura
gaúcha.
Esta segunda
ajuda a entender uma das raízes desse sentimento.
O fogo aceso no
Acampamento Farroupilha de hoje está separado por quase dois séculos dos campos
de batalha de 1835.
Mas entre um e
outro existe uma linha de memória que nunca deixou de ser transmitida.
É uma história
sobre aquilo que um povo decidiu não esquecer.
clique aqui”
Dois milhões de pessoas passaram pelo Acampamento Farroupilha de Porto Alegre em 2026, mas a força do 20 de Setembro vai muito além do Rio Grande do Sul: está nos CTGs, nas famílias e nos gaúchos espalhados pelo Brasil e pelo mundo.