A guerra que virou identidade

Entenda por que a Revolução Farroupilha ainda mexe tanto com o Rio Grande do Sul

Redação Revista Receita Turismo | 20/09/2026

A guerra que virou identidade

A Revolução Farroupilha, iniciada em 1835, marcou profundamente a história do Rio Grande do Sul e permanece presente na identidade cultural gaúcha até hoje. (Imagem ilustrativa | Revista Receita de Turismo)

A festa nasceu de uma guerra: o que foi a Revolução Farroupilha e por que ela ainda mexe tanto com o Rio Grande do Sul

Por dez anos, entre 1835 e 1845, farroupilhas enfrentaram o Império do Brasil, proclamaram uma república, levaram a guerra até Santa Catarina e deixaram marcas que, quase dois séculos depois, continuam presentes no 20 de Setembro, nos CTGs, nas músicas e na identidade gaúcha


Milhares de pessoas vestiram pilchas, acenderam o fogo, passaram o chimarrão de mão em mão e celebraram o 20 de Setembro.


Mas por trás da festa existe uma guerra.

Uma guerra que durou dez anos, mobilizou estancieiros, militares, trabalhadores livres, escravizados e libertos, criou uma república no extremo sul do Brasil, atravessou fronteiras provinciais e ajudou a construir uma memória que continua viva 191 anos depois de seu início.

Para quem não é do Rio Grande do Sul, talvez essa seja uma das partes mais curiosas da Semana Farroupilha: por que um conflito encerrado em 1845 ainda é lembrado com tanta intensidade?

Para começar a responder, é preciso voltar ao Brasil de 1835.

O que estava acontecendo no Brasil quando a Revolução Farroupilha começou?

O país ainda era jovem.

Dom Pedro I havia abdicado em 1831, e seu filho, o futuro Dom Pedro II, era uma criança. O Brasil passou então a ser governado por regentes, em um período marcado por disputas políticas e rebeliões em várias províncias.

No extremo sul, a então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul carregava uma particularidade: sua economia estava fortemente ligada à criação de gado e à produção de charque, carne salgada e seca que abastecia outras regiões brasileiras. Os produtores locais reclamavam dos impostos e da concorrência do charque importado do Uruguai e da Argentina, que chegava ao mercado em condições consideradas mais favoráveis.

Mas reduzir a Revolução Farroupilha a uma briga por impostos seria simplificar demais.

Também existiam conflitos sobre autonomia provincial, insatisfação com presidentes nomeados pelo governo central e circulação de ideias liberais, federalistas e, em parte do movimento, republicanas. A própria documentação histórica mostra que o separatismo não foi necessariamente o ponto de partida de todos os revoltosos; o movimento se radicalizou ao longo da guerra.

Quem lutava contra quem?

De um lado estavam os farroupilhas, ou farrapos, formados em torno de lideranças políticas e militares da província, entre eles Bento Gonçalves.

Do outro estavam as forças ligadas ao governo do Império do Brasil, também chamadas de legalistas ou imperiais.

É importante não imaginar, porém, um Rio Grande do Sul inteiro unido contra o restante do país.

Havia rio-grandenses nos dois lados.

Cidades, famílias e lideranças locais fizeram escolhas diferentes ao longo do conflito. Porto Alegre, por exemplo, depois de tomada pelos rebeldes no início da revolta, voltou ao controle imperial e tornou-se um importante centro de resistência aos farroupilhas.

Portanto, embora a memória posterior tenha criado símbolos bastante nítidos, a guerra real foi mais complexa.

E o que aconteceu em 20 de setembro de 1835?

Na noite de 19 para 20 de setembro, forças rebeldes entraram em confronto nas proximidades de Porto Alegre. No dia 20, tropas lideradas por Bento Gonçalves avançaram sobre a capital provincial.

O então presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, deixou Porto Alegre e seguiu para Rio Grande, que se tornaria uma das principais bases do governo imperial durante o conflito.

É esse episódio que deu ao 20 de Setembro o significado histórico que carrega hoje.

Mas havia uma diferença importante entre aquele momento e o que aconteceria depois:

em setembro de 1835, os revoltosos ainda não haviam proclamado uma república independente.

Então o Rio Grande do Sul não começou a guerra querendo se separar do Brasil?

Essa é uma das perguntas mais interessantes da Revolução Farroupilha.

Não dá para responder simplesmente “sim” ou “não”.

No começo da revolta, parte importante das reivindicações estava ligada à deposição do presidente provincial e à exigência de maior autonomia e atenção aos interesses locais. Documentos da época mostram que Bento Gonçalves pressionava o governo central e chegou a ameaçar com a separação caso as reivindicações da província não fossem atendidas.

A independência veio depois.

Quase um ano após o início da guerra, em 11 de setembro de 1836, depois da vitória farroupilha na Batalha do Seival, Antônio de Souza Netto proclamou a República Rio-Grandense.

A partir daí, o conflito assumiu claramente uma dimensão separatista e republicana entre os rebeldes que aderiram ao novo Estado.

Piratini tornou-se a primeira capital da República Rio-Grandense.

Quem foi Bento Gonçalves?

Bento Gonçalves da Silva tornou-se o personagem mais conhecido da Revolução Farroupilha e foi escolhido presidente da República Rio-Grandense.

Militar, estancieiro e liderança política, participou diretamente da articulação inicial da revolta.

Mas sua trajetória durante a guerra esteve longe de ser simples.

Em 1836, acabou capturado após a derrota farroupilha na Ilha do Fanfa. Foi enviado para o Rio de Janeiro e depois para a Bahia, de onde conseguiu fugir e retornar ao sul.

Ao longo dos dez anos, outras lideranças também tiveram enorme importância, como Antônio de Souza Netto, David Canabarro e Giuseppe Garibaldi.

A Revolução Farroupilha não foi obra de um único homem.

E como Giuseppe Garibaldi foi parar no Rio Grande do Sul?

Essa é uma das histórias que ajudaram a tornar a Revolução Farroupilha conhecida para além do Brasil.

Giuseppe Garibaldi era um revolucionário italiano que se envolveu com a causa farroupilha e passou a atuar nas operações militares e navais dos rebeldes.

O problema estratégico dos farrapos era evidente: embora controlassem grande parte do interior em determinados momentos, não dominavam com segurança os principais acessos marítimos.

A busca por um porto ajudou a levar a revolução para Santa Catarina.

Foi assim que surgiu a República Juliana?

Sim.

Em 1839, forças farroupilhas avançaram sobre Laguna, em Santa Catarina. Garibaldi participou das operações por água, enquanto David Canabarro comandava tropas por terra.

Laguna foi tomada em julho daquele ano e ali foi proclamada a República Juliana, também chamada de República Catarinense. A experiência republicana foi curta e terminou ainda em 1839, depois da retomada da região pelas forças imperiais.

Foi também nesse período que Garibaldi conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro.

O mundo passaria a conhecê-la como Anita Garibaldi.

Anita Garibaldi realmente participou da guerra?

Participou.

Anita não ficou apenas ao lado de Garibaldi como personagem romântica de sua biografia.

Ela acompanhou campanhas e enfrentou situações de combate e fuga durante a Revolução Farroupilha e a República Juliana. Mais tarde, seguiria com Garibaldi para o Uruguai e depois teria seu nome associado também às lutas pela unificação italiana.

Essa trajetória ajudou a transformá-la em uma das figuras femininas mais conhecidas da história sul-brasileira.

E os Lanceiros Negros?

Aqui a matéria precisa abandonar qualquer romantização.

Homens negros tiveram participação importante nas forças farroupilhas, especialmente nas unidades conhecidas como Lanceiros Negros.

Muitos eram escravizados incorporados à guerra sob expectativas ou promessas de liberdade.

Perto do fim do conflito ocorreu um dos episódios mais controversos e dolorosos da Revolução Farroupilha: o Combate de Porongos, em novembro de 1844, quando uma força imperial atacou o acampamento farroupilha e grande número de combatentes negros foi morto.

O episódio é objeto de debate historiográfico.

Existem interpretações que apontam para uma possível combinação ou traição envolvendo o desarmamento dos lanceiros antes do ataque; outros pesquisadores discutem os limites documentais dessas conclusões. O que não está em dúvida é que Porongos se tornou uma ferida profunda na memória da guerra e impede qualquer leitura simples ou puramente heroica do conflito.

Afinal, os farroupilhas defendiam liberdade enquanto mantinham escravos?

Essa é justamente uma das grandes contradições da Revolução Farroupilha.

Muitas das principais lideranças do movimento pertenciam a uma sociedade escravista e eram proprietárias de terras, gado e, em vários casos, pessoas escravizadas.

Ao mesmo tempo, negros lutaram nas fileiras farroupilhas e alguns conquistaram ou receberam promessas de liberdade.

Por isso, palavras como “liberdade” precisam ser entendidas dentro do contexto daquele século.

A liberdade política defendida por líderes republicanos não significava necessariamente a defesa da abolição da escravidão para toda a população.

É uma contradição essencial para compreender o período sem transformá-lo nem em lenda perfeita nem em caricatura.

Como essa guerra de dez anos conseguiu durar tanto?

O território ajudava.

O conhecimento dos campos, das fronteiras e das rotas, somado à mobilidade da cavalaria e à experiência militar de muitos combatentes, permitiu aos farroupilhas manter o conflito por muito tempo.

Além disso, a proximidade com Uruguai e Argentina fazia do sul uma região de intensa circulação política, comercial e militar.

Mas dez anos de guerra cobraram um preço elevado.

Houve desgaste das tropas, perdas humanas, prejuízos econômicos e divergências internas entre os próprios farroupilhas.

Na década de 1840, o Império intensificou os esforços de pacificação.

Quem entrou em cena para acabar com a guerra?

Luís Alves de Lima e Silva, então Barão de Caxias — posteriormente Duque de Caxias — assumiu o comando imperial no sul e passou a combinar operações militares com negociações políticas.

Já não se tratava apenas de derrotar os rebeldes no campo.

Era preciso construir uma saída que permitisse reintegrar a província ao Império.

As negociações avançaram até 1845.

Quem ganhou a Revolução Farroupilha?

Essa pergunta exige cuidado.

Militar e politicamente, a República Rio-Grandense não permaneceu independente. Ao fim do conflito, o território voltou definitivamente à estrutura do Império do Brasil.

Mas também não houve simplesmente uma rendição incondicional dos farroupilhas.

A pacificação envolveu negociações e concessões, incluindo anistia aos participantes e incorporação de oficiais e soldados ao Exército imperial. Fontes regionais também registram medidas relacionadas à tributação do charque e às reivindicações políticas da província.

Talvez por isso seja mais correto entender o desfecho como uma pacificação negociada depois do desgaste da rebelião, e não como uma vitória simples capaz de resumir toda a guerra em um vencedor e um derrotado.

O que foi o Tratado de Ponche Verde?

O nome tradicionalmente associado ao encerramento da guerra é Paz de Ponche Verde.

Em fevereiro de 1845, as condições negociadas para encerrar o conflito foram apresentadas às lideranças farroupilhas nos campos de Ponche Verde, região de Dom Pedrito.

Registros oficiais locais indicam que as condições foram aceitas no final de fevereiro, e em 1º de março de 1845 o Barão de Caxias anunciou oficialmente a pacificação da província.

Depois de quase dez anos, terminava a Revolução Farroupilha.

Se a república acabou, por que o 20 de Setembro sobreviveu?

É aqui que história e identidade começam a se misturar.

Guerras acabam.

Memórias não necessariamente.

Ao longo das gerações, personagens, símbolos e episódios da Revolução Farroupilha passaram a ocupar um lugar cada vez maior na construção da identidade cultural do Rio Grande do Sul.

O 20 de Setembro deixou de ser apenas a lembrança de uma ação militar ocorrida em 1835.

Passou a representar, para parte significativa da tradição gaúcha, ideias associadas a autonomia, resistência, coragem, pertencimento regional e defesa de interesses locais.

Isso não significa que todos os gaúchos interpretem a guerra da mesma maneira.

Historiadores continuam revisitando o conflito, discutindo suas contradições e ampliando o espaço dado a personagens e grupos que por muito tempo ficaram fora da narrativa tradicional.

E talvez seja justamente isso que mantenha a história viva.

A Revolução Farroupilha foi uma guerra de heróis?

Foi uma guerra de pessoas.

E pessoas têm interesses, virtudes, contradições e escolhas difíceis.

Havia homens dispostos a morrer por um projeto político.

Havia interesses econômicos.

Havia disputas pelo poder.

Havia escravidão.

Havia negros lutando por liberdade.

Havia republicanos.

Havia monarquistas.

Havia gaúchos lutando contra gaúchos.

Havia mulheres atravessando batalhas.

Havia famílias divididas.

Quando retiramos a camada da lenda, a história não fica menor.

Fica maior.

Porque passa a mostrar seres humanos tomando decisões em um dos períodos mais turbulentos do Brasil.

E onde o turista encontra essa história hoje?

A Revolução Farroupilha não está apenas nos livros.

Ela pode ser encontrada em cidades, museus, monumentos e paisagens do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Piratini foi a primeira capital da República Rio-Grandense.

Caçapava do Sul e Alegrete também exerceram funções de capital durante o período republicano farroupilha.

Porto Alegre preserva lugares associados ao início da revolução.

Dom Pedrito guarda a memória de Ponche Verde.

E Laguna, em Santa Catarina, mantém viva a história da República Juliana e de Anita e Giuseppe Garibaldi. O antigo prédio de Câmara e Cadeia da cidade, onde ocorreu a proclamação republicana local, abriga hoje o Museu Histórico Anita Garibaldi.

É nesse ponto que a história volta a encontrar o turismo.

Quem percorre esses lugares deixa de enxergar a Revolução Farroupilha somente como uma sequência de datas.

Passa a caminhar pelos cenários onde aquela história realmente aconteceu.

Por que essa guerra ainda mexe tanto com o Rio Grande do Sul?

Talvez porque ela tenha deixado de pertencer apenas a 1835.

Foi incorporada à música.

À literatura.

À bandeira.

À linguagem.

À memória familiar.

Aos CTGs.

Ao 20 de Setembro.

Aos desfiles.

À maneira como muitos gaúchos aprenderam a contar a própria história.

Mas o significado da Revolução Farroupilha continua sendo discutido.

E isso é saudável.

Uma sociedade não precisa escolher entre celebrar sua memória e conhecer suas contradições.

Pode fazer as duas coisas.

Talvez compreender verdadeiramente uma tradição seja justamente ter maturidade para admirar aquilo que ela construiu sem esconder aquilo que sua história tem de difícil.

A primeira matéria desta série mostrou uma tradição que atravessou fronteiras, levou CTGs a diferentes partes do Brasil e reuniu milhões de pessoas em torno da cultura gaúcha.

Esta segunda ajuda a entender uma das raízes desse sentimento.

O fogo aceso no Acampamento Farroupilha de hoje está separado por quase dois séculos dos campos de batalha de 1835.

Mas entre um e outro existe uma linha de memória que nunca deixou de ser transmitida.

É uma história sobre aquilo que um povo decidiu não esquecer.

clique aqui”

Dois milhões de pessoas passaram pelo Acampamento Farroupilha de Porto Alegre em 2026, mas a força do 20 de Setembro vai muito além do Rio Grande do Sul: está nos CTGs, nas famílias e nos gaúchos espalhados pelo Brasil e pelo mundo.

Re